Lucas Mendes: A virgem de Hollywood
Quatro casamentos miseráveis, casos, acidentes trágicos, recordista mundial de bilheteria no cinema e venda de discos. Aos 45 anos deu uma banana para as gravadoras, aos 46 deu outra para Hollywood, aos 49, no auge da carreira televisiva, recusou outro contrato com a CBS. Indiferente à fama e à fortuna, Doris Day deu bye-bye à capital da celebridade e foi viver em reclusão com seus cães em Carmel, na Califórnia.
O pianista Oscar Levant  disse que conheceu Doris Day antes dela ser virgem. A frase absurda tem fundamento.
Esta semana ela fez 88 anos e sem sair de sua reclusão em Carmel, na Califórnia, deu uma entrevista por telefone. Já tinha dado outra, mais longa em outubro para a mesma rádio pública, a NPR. Quando ouvi foi como uma assombração da minha juventude falando comigo às duas da tarde de um sábado.
Nem uma palavra sobre os 4 maridos e o único filho, que morreu de câncer de pele em 2004, com 62 anos.
Doris Day era debochada pela imprensa de Hollywood porque não fumava, não bebia, não ia às festas de Hollywood nem para promover seus filmes.
Seguia à risca sua religião "Igreja de Cristo, Científica", em inglês, Christian Scientist.
Não tomava nenhum remédio nem ia a médicos. Teve várias crises nervosas, e quase morreu de um tumor no útero que foi retirado e se tornou outra fonte de depressão.
Numa carreira de 25 anos no cinema ela foi, e ainda é, a atriz recordista mundial de bilheteria. Gravou 650 músicas, dezenas delas campeãs nas paradas. Nove foram indicadas para Oscars, três ganharam. Num ano teve duas candidatas. Ganhou com Que Será, Será.
Nas entrevistas, a voz está firme, mas, efervescente. Ri o tempo todo, como se tivesse no terceiro copo de champagne. Nenhuma reclamação da vida que muitas vezes foi bruta com ela.
Doris, descendente de família alemã, nasceu e cresceu em Cincinati. O pai, organista e regente do coral da igreja, investiu na filha dançarina e pianista a partir dos cinco anos. Nunca aprendeu a ler música mas aos treze anos foi convidada para ir dançar profissionalmente em Hollywood. Na véspera saiu para uma despedida com os amigos. Na volta para casa o carro foi destruído por um trem.
Doris ficou mais de dois anos na cama e quase teve a perna amputada. A carreira de dançarina morreu, nasceu a de cantora. Imóvel na cama, ouvia rádio e cantava junto com Ella Fitzgerald. Um professor ajudou a arrendondar a voz que tinha, como o pai, afinação perfeita.
Com 16 anos cantava num clube de Cincinati onde conheceu o primeiro marido, um psicopata, de quem levou surras durante a gravidez. Aos 18 ja era mãe e divorciada. Ele suicidou alguns anos depois .
Sobre o segundo e o quarto marido não vale a pena perder tempo. Depois falamos sobre o terceiro.
A voz de Doris, pelo rádio, foi descoberta por Les Brown, líder de uma das grandes bandas da época. Com 23 anos ela gravou Sentimental Journey e foi o primeiro de dezenas de campeões das paradas.
O disco saiu em 44 e a canção teve uma conexão imediata com a Segunda Guerra.
Rock Hudson, que mais tarde faria vários filmes com ela, estava na Marinha e se lembra de sua partida de São Francisco, quando o navio passava debaixo da Golden Gate, com a música nos alto falantes a bordo. A tripulação chorou junto.

A carreira no cinema começou contra a vontade dela que argumentava com o agente: "Não sou, nem sei ser atriz." Um dia conseguiu levá-la para um teste com o diretor Michael Curtiz, o de Casablanca, que fazia seu primeiro filme como produtor independente.
Apesar da falta de interesse, foi contratada para Romance on the High Seas, o primeiro de 39 filmes que vão do ridículo, como That Touch of Mink, Tunel of Love, aos excepcionais Calamity Jane, Lucky Me, Young at Heart, Love Me or Leave Me, The Man Who Knew too Much.
Contracenou com James Cagney, Clark Gable, David Niven, Frank Sinatra, a fina flor dos atores de Hollywood, e se deu bem com todos eles.
No novo livro, Considering Doris Day, o biógrafo Tom Santopietro, homem de Broadway, examina o lado profissional de Doris Day e diz que poucos atores tinham uma ética de trabalho como ela.
Nunca atrasava, fazia o dever de casa, ia para o set de um flme idiota como That Touch of Mink com a mesma atitude que ia para o de Alfred Hitchcock. That Touch of Mink reforçou a fama de "virgem" de Hollywood.
Ela passa o filme inteiro protegendo a virgindade assediada por Cary Grant. Outro fator foi a recusa do papel de Mrs. Robinson em The Graduate. Muito sexo.
Provavelmente a decisão foi do terceiro marido que era o agente dela num casamento que durou quase vinte anos.
Ciumento, isolou Doris e, com ajuda de um advogado/corretor, sem conhecimento da mulher, transferiu a fortuna dela para as contas dele na Suíça. Os cálculos vão de US$ 22 milhões a US$ 100 milhões.


Só soube que estava pobre quando recebeu uma conta de US$ 500 mil do imposto de renda. Processou o advogado e anos mais tarde conseguiu reaver US$ 3 milhões.
O marido também foi responsável por vários filmes que deveriam ter ido para o lixo e pelo contrato de 5 anos com a rede CBS, que ela só soube da existência depois da morte dele.
O repertório musical também ficava muito a critério dos outros. Às vezes tinha arranjadores excepcionais ou parceiros como Andre Previn mas cantava qualquer coisa que colocavam na frente dela.
Apesar dos desastres ninguém vendeu tantos discos como ela durante quase 40 anos de carreira.
Na entrevista ela disse que passou outros 30 sem ouvir um disco dela. Quando um amigo mandou uma coleção completa, ela trancou a caixa no porão.
Uma amiga levou para ela um aparelhinho e disse que tudo que ela tinha cantado estava ali dentro. Foi apresentada ao iPod que já não era novidade. Intrigada concordou em ouvir uma. Chorou como uma criança e comentou que não tinha errado nenhuma nota. Nunca mais ouviu outra.

Fonte: BBC



Jerry Lewis, um gênio da comédia.




Imagem da net

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Lucas Mendes:  Jerry Lewis, 86, alopradíssimo.
Fui ao aniversario de 86 anos do Jerry Lewis e durante quase duas horas ri como nunca tinha rido nos filmes dele. Parecia um passo além do absurdo.
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Fui como convidado com quase mil fãs pagantes no teatro da YMCA, da rua 92, um antro de artes e entretenimento.
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Vimos primeiro uma edição curta do documentário Method of Madness of Jerry Lewis onde uma procissão de grandes atores e diretores colocam Lewis no pedestal dos gênios, mas naquela plateia ninguém precisava ser convencido da genialidade do comediante. Rolava um bom humor geral. Nas poucas cenas dos filmes no documentário a audiência explodia em aplausos espontâneos.
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Jerry Lewis, depois de breve introdução do ator Richard Belzer, entrou no palco e sentou numa destas cadeiras de diretor.
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Um pouco curvado mas sem outros sinais de decadência, está com uma rapidez mental e um senso de humor que causam inveja a sessentões como eu.
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Ele sobreviveu a câncer de próstata, gravíssima fibrose pulmonar, um ataque cardíaco quase fatal, dores brutais na coluna provocadas por anos de quedas nos filmes e palcos e controlada, durante décadas, por 13 pílulas diárias de Percodan que criaram uma dependência. Ele se libertou das pílulas graças a um marca-passo eletrônico que funciona por controle remoto. Quando dói, ele clica, e bye bye dor.
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O ator Richard Belzer que chama Jerry Lewis de "pai" conduziu uma conversa sobre os altos e baixos da carreira do comediante que começou aos 5 anos com os pais, um casal vaudeviliano.
O pai, imigrante judeu russo era mestre de cerimônias. A mãe, também imigrante russa, era a pianista. Na sua primeira entrada num palco Jerry Lewis, ao agradecer os aplausos, pisou, sem querer, numa lâmpada que explodiu. A plateia veio abaixo: "Eu vou fazer aquilo de novo", disse aos velhos.
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Desde então, deu poucos passos em falso na carreira que disparou quando fez dupla com Dean Martin em 1946. Em um ano eles saíram de US$ 175 para US$ 30 mil por semana e os shows da dupla provocavam reações de histeria semelhantes às dos Beatles. Dean Martin tinha os encantos e a voz, Jerry Lewis, as macaquices.
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Eu entrevistei Jerry Lewis em Times Square, em 1995, para a TV Cultura. Ele tinha 69 anos, um pouco mais do que eu tenho hoje e acabava de estrear na peça Damn Yankees. Fazia o papel do Diabo. A plateia vinha abaixo quando ele entrava em cena. Cantava e dancava. Foi o ano da morte de Dean Martin, seu parceiro de dez anos de shows, televisão, rádio, cabarés e 14 filmes.
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O rompimento foi em 56. Deixou Lewis arrasado e nenhum dos dois deu explicações. Uma reconciliação temporária foi orquestrada por Frank Sinatra, amigo comum, mas só voltaram a ser amigos quando o filho de Dean Martin morreu num acidente de avião e o ex-parceiro trocou o suco de maçã pelo álcool. O fim foi rápido.
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Ate então a embriaguês era uma imagem falsa e debochada que Dean Martin cultivava porque dava bons dividendos. Bebia pouco. O verdadeiro vício dele, diário, era o golfe. Jerry Lewis se lembra Dean Martin com culpa e profundo afeto. Dean Martin saiu porque cansou de ser escada, da falta de reconhecimento e porque não precisava do afeto do público, como Jerry Lewis.
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Ambos tiveram carreiras bem sucedidas depois da separação mas a do comediante explodiu, como showman, ator, diretor, roteirista e inventor do  video assist, um precursor do video tape que permitia ver a cena gravada instantaneamente. A partir daí sempre terminava seus filmes dentro dos prazos e orçamentos.
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Ele conta, com grande prazer, a história do filme Bell Boy que, a pedido da Paramount, filmou em tempo recorde no hotel  Fountainebleau, em Miami. A distribuidora recusou o filme porque era mudo. Jerry Lewis bancou os US$ 950 mil e o filme ja rendeu US$ 650 milhões.
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Jerry se lembra com tristeza de um fracasso que só foi visto por uma dúzia de pessoas. Ou menos e não quer que seja visto. The Day the  Clown Cried, de 1972, conta a história de um palhaço que leva crianças judias para a câmara de gás e, um dia, o palhaço entra na câmara e morre junto com elas. Jerry Lewis, um judeu, não teve o talento para colocar humor num campo de concentração como Roberto Benigni, em A Vida é Bela.
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Ladies Man, Patsy,  Nutty Professor, os filmes são tantos e cada um tem uma historia engracada ou dramatica. Jerry Lewis esta produzindo e dirigindo uma versao do Nutty Professor para a Broadway que deve estrear ainda este ano e assinou um contrato no começo do ano passado para co-produzir The Bell Boy, Cinderfellaw e The Family Jewels, um filme onde ele fez sete papéis diferentes.
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Jerry Lewis queria fazer tudo em Hollywood, da direção a carregador de cenários mas os sindicatos não deixavam a menos que ele fosse membro. Ele pagou e tem carteirinhas de 14 sindicatos de Hollywood, outro recorde.
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Mas e o humor da noite? A última hora foi na base do improviso, a especialidade dele. Mais de cem pessoas se enfileiraram nas duas alas do teatro para fazer perguntas. Jerry Lewis fez um alerta: "Por favor, não me digam que me adoram, que me amam desde a infância quando viam meus filmes com seus pais. Eu já ouvi isto milhares de vezes e, acreditem, eu acredito. Por favor, vamos ao ponto."
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Na primeira pergunta, a mulher começou: "Nós adoramos você na minha casa..."
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Jerry Lewis rodou os olhos. "Próxima pergunta", disse.
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De mais de cem perguntas, ele teve pena de meia dúzia de fãs, entre eles um paraplégico que pediu um abraço. Outro fã, que contou uma boa história e pediu um perto de mão, teve o desejo satisfeito mas Jerry Lewis aproveitou para arrancar risadas com uma piada sobre o passado gay. Eu confesso minha falta de talento para transcrever o humor de Jerry Lewis. Gravei a noite mas sem as expressões e o ritmo dele, o humor perde a graça. A genialidade dele não esta no texto, não pode ser separada da pessoa. Jerry Lewis é Jerry Lewis.
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Qual o segredo desta longevidade saudável e promissora que venceu tantas doenças? Uma gargalhada por dia vale dez anos de vida, ele garante.
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Antes daquela noite não me lembro da minha última gargalhada. Uma tragédia.

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Lucas Mendes  - De Nova York para a BBC Brasil

Felicidade: meta para 2012







Poesia FelicidadeFernando Pessoa


Não se acostume com o que não o faz feliz, revolte-se quando julgar necessário.
Alague seu coração de esperanças, mas não deixe que ele se afogue nelas.
Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!
Se estiver tudo errado, comece novamente.
Se estiver tudo certo, continue.
Se sentir saudades, mate-a.
Se perder um amor, não se perca!
Se o achar, segure-o!








O Natal se foi e o Ano Novo bate à porta...


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Quem acompanha o blog sabe que Natal para mim é como a água: insípido, inodoro e incolor. Nada contra o Bom Velhinho e muito menos contra o Aniversariante do dia, mas como o Natal é família e na ausência dela perde o sentido, para mim já perdeu faz tempo. E parece que Vinicius de Moraes entendeu perfeitamente o sentido da ausência nesse Poema de Natal. É com ele que eu me despeço de 2011 desejando a todos mais poesia na vida e no mundo.

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Poema de Natal
Vinicius de Moraes

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia

Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Vinicius de Moraes, poeta e diplomata na linha direta de Xangô. Saravá! No poema acima temos retratado aquele que, para muitos, é um evento triste.

O acima foi foi extraído do livro "Antologia Poética", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1960, pág. 147.


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Fonte: Releituras
Foto/Cartão: @AYRTON360

Feliz Aniversário, Woody!



“O amor é a resposta, mas enquanto você está 



esperando, o sexo é capaz de fornecer boas

perguntas.”
Woody Allen, comediante, ator, diretor de cinema, EUA, 1935



Para Maria da Graça.






Para Maria da Graça

Paulo Mendes Campos



Agora, que chegaste à idade avançada de 15 anos, Maria da Graça, eu te dou este livro: “Alice no País das Maravilhas”.

Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti.

Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade.

A realidade, Maria, é louca.

Nem o Papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: "Fala a verdade Dinah, já comeste um morcego?".

Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. "Quem sou eu no mundo?". Essa indagação perplexa é o lugar-comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira.

A sozinhez (esquece essa palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: "Estou tão cansada de estar aqui sozinha!". O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! Só as criaturas humanas (nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados) conseguem abrir uma porta bem fechada, e vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.

Somos todos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial, e temos a presunção petulante de esperar dela grandes conseqüências. Quando Alice comeu o bolo, e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece, geralmente, às pessoas que comem bolo.

Maria, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda sabedoria tem de ser grave.

A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes por dia: "Oh, I beg your pardon!". Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo, para a tua sabedoria de bolso: se gostas de gato, experimenta o ponto-de-vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: "Gostarias de gatos se fosses eu?".

Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos tão escondidos, que, quando os atletas chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: "A corrida terminou! Mas quem ganhou?". É bobice, Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não irá saber quem venceu. Se tiveres de ir a algum lugar, não te preocupe a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre aonde quiseres, ganhaste.

Disse o ratinho: "Minha história é longa e triste!". Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: "Minha vida daria um romance". Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois o romance é só o jeito de contar uma vida, foge, polida mas energicamente, dos homens e das mulheres que suspiram e dizem: "Minha vida daria um romance!". Sobretudo dos homens. Uns chatos irremediáveis, Maria.

Os milagres sempre acontecem na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: "Devo estar diminuindo de novo". Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente.

E escuta esta parábola perfeita: Alice tinha diminuído tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. Ê isso mesmo. A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e de rinocerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. E como tomar o pequeno por grande e o grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom-humor.

Toda pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para as grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões.

Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago, pensava: "Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas...".

Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida: É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça.

Paulo Mendes Campos


* grifos meus e uma recomendação: esse é o tipo de texto necessário. Com sorte alguns lerão aos 15 anos e a vida, apesar de suas surpresas, seguirá quase suave, outros tomarão conhecimento mais tarde e ainda assim, acreditem, fará diferença.

Carlos Drummond de Andrade pelo seu aniversário...




O poeta

“Em meus arroubos de infância
numa doce ignorância
julgava eu que os poetas
pelas mãos de Deus, benditos
eram homens pudicos, profetas

E adolescente ainda
pensava, coisa mais linda
viajar todo o universo
retendo entre as mãos a sorte
de voar do sul ao norte
nas asas de um só verso

Não sei bem porque,um dia
juntei toda a fantasia
daqueles sonhos de infância
à dura realidade da minha maturidade
E fiz primeira instância
Desde então versei saudade
tristeza, amor, liberta
Tudo quanto a vida ensina

Compreendi que ser poeta
não é profissão ou meta
é dom natural, é sina

Todos têm a mesma sorte
o direito à vida e à morte
E quando o fim se aproxima
a diferença é uma só
muitos retornam ao pó
o poeta...vira rima”
V.Bauer

Poetas não morrem, viram rima. Por isso, esses anos de falecimento são só um detalhe para quem a eternidade é certa. O poeta que pontuou sua obra falando da morte constantemente se deixou levar por ela quando perdeu o grande amor de sua vida, sua filha. Desolado, Drummond pede a sua cardiologista que lhe receite um “infarto fulminante”. Apenas doze dias depois, em 17 de agosto de 1987, Drummond morre numa clínica em Botafogo, no Rio de Janeiro, de mãos dadas com Lygia Fernandes, sua namorada com quem manteve um romance paralelo ao casamento e que durou 35 anos (Drummond era 25 anos mais velho e a conheceu quando ele tinha 49 anos). Era uma amor secreto, mas nem tanto. Lygia contaria ao jornalista Geneton Moares Neto (a quem Drummond concedeu sua última entrevista) que “a paixão foi fulminante”.
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Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
C.D.A.

A VIDA
“Minha vida? Acho que foi pouco interessante. O que é que eu fui? Fui um burocrata, um jornalista burocratizado. Não tive nenhum lance importante na minha vida. Nunca exerci um cargo que me permitisse tomar uma grande decisão política ou social ou econômica. Nunca nenhum destino ficou dependendo da minha vida ou do meu comportamento ou da minha atitude.
“Eu me considero - e sou realmente - um homem comum. Não dirijo nenhuma empresa pública ou privada. A sorte dos trabalhadores não depende de mim”.
“Sou apenas um homem/ Um homem pequenino à beira de um rio/ Vejo as águas que passam e não as compreendo/ ...Sou apenas o sorriso na face de um homem calado” (América - trecho)


A SOLIDÃO
“Se eu me sinto solitário? Em parte, sim, porque perdi meus pais e meus irmãos todos. Nós éramos seis irmãos. E, em parte, porque perdi também amigos da minha mocidade, como Pedro Nava, Mílton Campos, Emílio Moura, Rodrigo Melo Franco de Andrade, Gustavo Capanema e outros que faziam parte da minha vida anterior, a mais profunda. Isso me dá um sentimento de solidão. Por outro lado, a solidão em si é muito relativa. Uma pessoa que tem hábitos intelectuais ou artísticos, uma pessoa que gosta de música, uma pessoa que gosta de ler nunca está sozinha. Ela terá sempre uma companhia: a companhia imensa de todos os artistas, todos os escritores que ela ama, ao longo dos séculos”.
“Precisava de um amigo/ desses calados, distantes,/ que lêem verso de Horácio/ mas secretamente influem/ na vida, no amor, na carne/ Estou só, não tenho amigo/ E a essa hora tardia/ como procurar um amigo?” (A bruxa - trecho)


A POESIA
“Não lamento, na minha carreira intelectual, nada que tenha deixado de fazer. Não fiz muita coisa. Não fiz nada organizado. Não tive um projeto de vida literária. As coisas foram acontecendo ao sabor da inspiração e do acaso. Não houve nenhuma programação. Não tendo tido nenhuma ambição literária, fui mais poeta pelo desejo e pela necessidade de exprimir sensações e emoções que me perturbavam o espírito e me causavam angústia. Fiz da minha poesia um sofá de analista. É esta a minha definição do meu fazer poético. Não tive a pretensão de ganhar prêmios ou de brilhar pela poesia ou de me comparar com meus colegas poetas. Pelo contrário. Sempre admirei muito os poetas que se afinavam comigo. Mas jamais tive a tentação de me incluir entre eles como um dos tais famosos. Não tive nada a me lamentar. Também não tenho nada do que me gabar. De maneira nenhuma. Minha poesia é cheia de imperfeições. Se eu fosse crítico, apontaria muitos defeitos. Não vou apontar. Deixo para os outros. Minha obra é pública.
“Mas eu acho que chega. Não quero inundar o mundo com minha poesia. Seria uma pretensão exagerada”.
“Não serei o poeta de um mundo caduco/ Também não cantarei o mundo futuro/ Estou preso à vida e olho meus companheiros/ Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças” (Mãos dadas - trecho)

ADEUS
“Quem é que fala hoje em Humberto de Campos? Quem é que fala em Emílio de Menezes? Quem é que fala em Goulart de Andrade? Quem é que fala em Luís Edmundo? Ninguém se recorda deles! Não fica nada! É engraçado. Mas não fica, não. Não tenho a menor ilusão. E não me aborreço: acho muito natural. É assim mesmo que é a vida. “Não vou dizer como o Figueiredo: ‘Quero que me esqueçam!’ Podem falar. Não me interessa, porque não acredito na vida eterna. Para mim, é indiferente. “Nenhum poema meu entrou para a História do Brasil. O que aconteceu foi o seguinte: ficaram como modismos e como frases feitas:tinha uma pedra no meio do caminho’ e ‘e agora, José?’. Que eu saiba, só. Mais nada. “Não tenho a menor pretensão de ser eterno. Pelo contrário: tenho a impressão de que daqui a vinte anos eu já estarei no Cemitério de São João Baptista. Ninguém vai falar de mim, graças a Deus. O que eu quero é paz”.
“Quero a paz das estepes/ a paz dos descampados/ a paz do Pico de Itabira/ quando havia Pico de Itabira/ A paz de cima das Agulhas Negras/ A paz de muito abaixo da mina mais funda e esboroada de Morro Velho/ A paz da paz” (Apelo a meus dessemelhantes em favor da paz - trecho).

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Por quê?
Por que nascemos para amar, se vamos morrer?
Por que morrer, se amamos?
Por que falta sentido
ao sentido de viver, amar, morrer?
C.D.A.


Leia mais aqui.

A Borboleta Azul




Reza a lenda  que uma menina curiosa, decide colocar à prova um velho sábio, por duvidar de que fosse realmente um sábio. Tomou nas mãos uma borboleta azul, escondeu-as mãos com a borboleta para trás, foi até o sábio e disse: tenho nas mãos uma borboleta azul, ela está viva ou morta. Antes que o sábio respondesse tinha preparado o seguinte ardil: se ele disser que está viva, eu a esmago e ela estará morta; ele não é um sábio. Se ele disser que ela está morta , eu a deixo voar; ele não é um sábio. Mas o sábio, como podíamos esperar de um sábio, foi muito sábio em sua resposta, ele disse: Ela está em suas mãos, depende de você.

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“Há uma única Verdade elementar, cuja ignorância mata
inumeráveis idéias e explêndidos planos:
no momento em que, empenhamo-nos a fundo, também a Providência
então se move. Infinitas coisas ocorrem para ajudar-nos,
coisas que de outro modo, não poderiam nunca acontecer…
Qualquer coisa que possas fazer,
Ou imaginar poder fazer,
Começa-a.
A audácia tem em si gênio, poder, magia.
Começa agora”.
W.Goehte.

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Nem sei mesmo se é de Goethe, acho otimista demais para ele, ainda assim a lenda e o pensamento se complementam tão perfeitamente que aqui estão em pleno fim de domingo. E é para refletir, para pensar, porque amanhã é segunda-feira e tudo pode ser diferente. Só depende de você. Já pensou?


O benefício da dúvida...



"Para o desesperado, a partida não parece menos impossível do que o retorno."
Thomas Mann

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            Confesso que não sei como é voltar, sou expert em partidas, perdas e coisas do gênero. Talvez voltar seja um recomeço, uma nova eu...talvez. Ainda prefiro o benefício da dúvida. Certezas absolutas nós só temos na adolescência, passada essa fase, o futuro em geral se apresenta nebuloso e a dúvida, acredite, é o maior benefício que se tem.
           Em dúvida, voltei.